segunda-feira, 15 de março de 2010
O caminho
Quanto mais aproximo a minha escrita de mim próprio menos leitores tenho no blog.
Acho que começo a encontrar o inicio do meu caminho…
domingo, 7 de março de 2010
Liberdade de Imprensa – Um crime contra a Humanidade
Saía da empresa tarde, costume. Saio à porta e viro à esquerda. Uso costume e movimento reflexo, passo o olhar pela televisão do restaurante que fica à minha porta. O avançado de toldo verde, que invade o passeio e se espraia do prédio que o viu nascer é em vidro. O som é o da agitação da cidade em fim de dia. O da Televisão fica para os clientes que lá estão. Sintoniza, por norma, na SIC Noticias. Melhor para mim. Um canal com relógio permanente ajuda-me a percepcionar o quanto estou atrasado.
Estava, de facto, atrasado, mas era inevitável parar. Não precisei de entrar, nem do som da televisão para me deleitar com o doce banho de natureza humana, neste caso, no zénite da estupidez das massas.
O título era “Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Liberdade de Imprensa”, o Subtítulo “Comissão discute liberdade de imprensa” e os protagonistas eram os digníssimos deputados da Nação.
Entendo que se crie uma Comissão Parlamentar de Inquérito para discutir a Liberdade de Imprensa, mas o momento em que os trabalhos dessa comissão são transmitidos em directo num órgão de comunicação social em canal aberto, diz-me a lógica, que a comissão deixa de ter razão de existir. Por outro lado a notícia anula o tema e deixa de ser, ela própria, noticia.
O desejo de controlo das massas, tão próprio do ser humano, é subvertido, revestindo-se esta Comissão de uma desumanidade avassaladora.
Por fim, os deputados que a integram, findam a sua missão no momento em que se ligam as câmaras de televisão, ou seja, logo no inicio dos trabalhos. Desta forma, todo o restante tempo em que permanecem na sala agrava a figura caricatural, de que muitos já se revestem, para um grotesco arrastar de um trabalho desprovido de sentido e que é remunerado com a mesada que para lá mando todos os meses.
Mousse 3 Sabores - Os tipos de Politicos
Os Profissionais, os Proscritos e os Simpatizantes.
Os Simpatizantes são os únicos que nunca conheceram os sistemas partidários o suficiente para não serem nem Profissionais nem Proscritos.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
"Avatar" à Vontade
No dia seguinte tinha o cérebro num loop de excertos chapados da tela. Não me peçam adjectivações nem análises. Para adjectivações teria de escrever um outro post, tão inútil quanto este, e para análises não me cabe nas parcas competências de cinéfilo assim-assim.
O que vos trago são duas ou três pequenas curiosidades banais, no entanto, só possíveis nesta experiencia de "Avatar 3D".
Todos nos já experimentámos aquele nervo miúdo que nos cerra os dentes por causa dos atrasados crónicos que insistem em entrar na sala depois de começar o filme. Jantámos a correr e queimámos a língua no café engolido de trago solitário. Corremos a comprar gomas sem tempo para critérios de escolha para depois descobrir, já dentro da sala, que as desgraçadas das azul-choque sabem a mosquitos e que as boas eram as verdes florescentes com riscas de rosa fuccia. Ainda para mais esquecemo-nos de comprar agua o que nos vai levar ao inevitável calvário da agonia da sede depois da gula. Tudo para entrar a horas na Sala, relaxar e dar de barato o bilhete.
Pequenas agruras que evoluem para a frustração total quando estamos a começar a descontrair com inicio esperado e, sem esperarmos, alguém passa em frente da Tela. Barata tonta que olha em todas as direcções, surrealmente ainda chama pelo nome do amigo em voz alta e, com pouquinho de sorte, volta para trás e vem-nos perguntar se não estamos sentados no 6C. "C"? Era onde me apetecia mandar-te sentar.
Em "Avatar" 3D não acontece. O ignóbil do atrasado passa, não em frente à tela, mas dentro da tela. Passa a fazer parte do filme. Pernicioso para o realizador mas confortável para quem assiste. Chega até a ser curiosa a sensação de conforto de ver esse personagem dentro da cena estando, de facto, fora de cena, em todos os sentidos.
Inicia-se a projecção. Sentimos os cérebro a reorientar-se para uma realidade visual incomum. A experiência 3D começou por me assustar. Se na Expo 98 quase fiquei nauseado com 10 minutos de um filme 3D com bichos marinhos á minha volta, como iria aguentar mais de 2 horas sem saco de enjoo? A sensação passa e passa-se, literalmente, para outra realidade. Um gourmet visual inesperado.
"Avatar" peca, no entanto, por alguns tiques, aqui e ali, da formatação de Hollywood. A historia de amor impossível, o crescente musical que acompanha o herói nas suas vitorias, os militares e a nação Americana e a derrota do mal material subjugado à beleza interior do homem. "Avatar" consegue, no entanto, a transmissão de uma novo conceito emocional. O conceito da importância da ligação do ser humano à natureza e à energia de todas as formas de vida.
Além do 3D esta é a verdadeira inovação de "Avatar". A historia de amor, relatada pela metáfora da paixão entre os dois protagonistas, é entre o Homem e o seu próprio planeta. A nossa relação com a energia da Terra e com todos os seus elementos, de tão evoluídos que pensamos que ficámos, é uma relação com um deus menor. Deuses maiores governam. O deus do Centro Comercial, do carro de gama alta, dos sapatos que apertam e daquela gravata que não desaperta...São tantos.
O deus menor é, no entanto, a nossa maior porta de saída para miséria emocional em que nos metemos, metendo na cabeça que até somos felizes.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Londres – Capitulo I - Harrods
Fui a Londres faz agora 5 graus a menos. Lá, nem por isso fazia. O móbil foi uma visita à minha cunhada imigrada, que tenta, em chances de coragem, mais uma estação de metro nesse comboio que é a sua viagem de vida. È assim com todos nós. Grande admiração pela tua entrega aos sonhos, Di.
Na verdade, a minha mulher queria fazer compras de Natal e lá fomos nós. Temos este prazer em comum. A alternância que vem da mistura de regar o ego com novos objectos pessoais e o enriquecer da mente quando nos embrenhamos em diferentes tempos, pessoas e estações…de metro. Por outras palavras, fazer compras enquanto se sente a historia de um outro povo.
Nesse nosso périplo decidimos ir ao Harrods. Local obrigatório para um parolo como eu que apenas tem dinheiro para entrar porque não se paga à entrada.
Não deixa de ser um fascínio mórbido, da maioria de nós, a ânsia de ver o preço de coisas que não podemos, de facto, comprar. È como voltar aos tempos de escola e sentir que o plafond do nosso cartão de crédito não é mais que a mesada que os nossos pais nos davam para comprar pastilhas gorila e que tornava a compra de uma bicicleta numa utopia reservada aos adultos. Somos crianças novamente a olhar para outro tipo de adultos. É como entrar num Stand da Ferrari. O que é que lá estamos a fazer realmente?
Estamos no Harrods. Mirei o preço de um Cavalo de Pau, em carvalho, como qualquer outro cavalo de pau que se vende na feira. Custava perto de € 6.000,00 (já com a conversão de Libras para Euros). Ou muito me engano ou por este preço comprava um cavalo a sério e forrejo para um ano inteiro. Aparentemente sem lógica à vista. Continuei.
O Harrods tem, no entanto, uma zona para crianças como eu. “Recuerdos” chamar-lhe-iam os espanhóis. Lá comprei umas coisitas que servirão como troféu da minha humilde presença. Pedi para embrulhar. Embrulhar é no piso -1, Sir. No caminho para as escadas passei pela Casa de Banho. Toalhas de linho aquecidas e 6 frascos de perfume, das mais refinadas marcas, à disposição dos clientes. Comecei a entender a lógica do preço do Cavalo de Pau.
Descemos, perfumados, ao Piso-1. Por entre os constantes motivos Egípcios que marcam o espaço, surgia, ao fundo das escadas rolantes, uma espécie de memorial. Honrava o filho morto do dono da casa. Doddy morreu com a mulher que o acompanhava e à qual também era devota a homenagem. Todos nos recordamos do romance, acidente e fatalidade de Doddy e da Princesa de Gales num túnel de Paris, de curioso nome “Tunel da Alma”. Eram dois tontos, provavelmente apaixonados. Uma princesa detentora de segredos de estado e segurança do seu País e um empresário de magnitude com ligações umbilicais a um país do médio oriente…Acabou como era previsível.
Chegamos à zona dos embrulhos. Zona estranhamente calma e sem filas. Perguntei se me podiam fazer um embrulho. A senhora olhou-me com aquele ar paternal próprio de quem reconhece um espécimen fora do seu habitat. Disse-me, educadamente, que o tempo de espera era de 3 horas (!).
A lógica dos preços para “adultos” ganhou uma transparência cristalina.
Quem compra nestes sítios não tem apenas muito dinheiro. Nem são os Cavalos de Pau que me distanciam deste mundo. O abismo é o poder de compra de um dos bens mais preciosos, o tempo.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
"O Solista"

Não direi para irem ver “O Solista” de Joe Wrigth.
Especialmente se não me conhecerem
De facto, quando o tema é cinema, abomina-me a criação de expectativas em torno de um qualquer filme que ainda não vi.
Se um conhecido esbugalha os olhos de entusiasmo e se enfia num persistente “Tens de ver, tens de ir ver….promete que vais ver!”, obriga-me a vasculhar todo o armário de registo que tenho dele e cada um dos seus gostos. Depois compará-los com os meus para saber se é seguro sequer ir ao cinema e, por vezes, perguntar porque somos sequer conhecidos.
Se é um amigo a aconselhar, é atroz a penitência de autoflagelo. Não saber o essencial sobre um amigo é imperdoável. Não podemos saber tudo, mas temos de saber se contamos com um “Ed Wood” ou um “Michael Mann” (do pior para o melhor). Se não sabemos isso podemos nos perguntar porque somos amigos sequer.
Se for um crítico cinematográfico, escolho sempre as 3 estrelas. Somo 2 estrelas pelo mérito de ter convencido alguém a pagar-lhe para ver filmes e, movimento reflexo, retiro 2 estrelas pelas alarvidades que lhes sai da bola da esferográfica. Assim como os realizadores portugueses que fazem filmes para os 4 ou 5 amigos lá do clube de Jazz, os críticos escrevem para os 2 ou 3 leitores que lhes percepcionam as entranhas de frustração. Estão atormentados pela tomada de consciência da inabilidade para filmar ou dirigir seja o que for. Até às 2 estrelas concordo com a classificação. Também não é o meu tipo de cinema. Filmes de 4 estrelas são incursões pela zona cinzenta da vida comum. Filmes de 5 estrelas são classificações dadas a obras que nem os críticos entenderam lá muito bem. Eu escolho as 3 estrelas. Tem a ver comigo, mediano.
Voltando ao “O Solista”.
Um filme feito em Hollywood para ser acarinhado na Europa. Um Jamie Foxx soberbo que não está a Solo. Tem um Robert Downey Jr que o acompanha num dueto de emoções cada vez mais raras nos argumentos que pintam as telas de cinema….de Hollywood.
domingo, 15 de novembro de 2009
George Carlin - As Pessoas são chatas
Apresentaram-me George Carlin há 3 dias. Ele já morreu há mais de um 1 ano. A maioria das vezes é necessário morrer para se ser conhecido. Menos comuns, pese maior o impacto, são as ocasiões em que a pressão de ser conhecido é a causa da morte.
Robert Enke foi a última vítima conhecida.
Os Antropólogos explicam estes fenómenos. Os hábitos e costumes dos Pré-Socráticos, como Homero e Hesíodo, marcam o inicio do estudo humano sobre os seus próprios….hábitos e costumes.
A Antropologia, desde essa origem, tem sido uma ciência orbital. Um pouco obscura e desconhecida das massas e sem o glamour de alguns dos seus “filhos” como a Sociologia e Psicologia.
George Carlin também era assim. Orbital, marginal, obscuro e sem o glamour comercial de filhos como “Seinfeld” e “Larry David”. Ele era um Antropólogo sem diploma académico.
Não precisava. Percorrer a sua obra é viajar pela genialidade de um homem que, pela arte da observação, desenhou em humor o comportamento do Homem dos nossos dias.
Se fosse um académico seria agraciado com distinção numa tese de doutoramento. Por mim, prefiro agracia-lo pelo caminho que escolheu de artista marginal. Até nessa escolha foi coerente para poder ter a liberdade de se criticar e compreender a si mesmo.
Vale a pena ver, no youtube, “Religion is Bullshit” e “We like War”. No Marcador Fluorescente deixo-vos “People are Boring”.
Genial
George Denis Patrick Carlin (12 de Maio de 1937 – 22 de Junho de 2008)


